As Olimpíadas de Inverno de Milão-Cortina 2026, já em curso na Itália, evidenciam as severas consequências do aquecimento global. Um estudo realizado pelo Instituto Talanoa aponta que 85% da neve utilizada nos jogos será artificial, destacando uma crescente dependência de meios tecnológicos para suprir a escassez natural de neve, que tem se acentuado desde os Jogos de Sochi em 2014.
Para a realização das competições, os organizadores necessitarão produzir cerca de 2,4 milhões de metros cúbicos de neve artificial, utilizando um total impressionante de 946 milhões de litros de água. Tal volume de água seria suficiente para encher um terço do Estádio do Maracanã, transformando o icônico palco esportivo em um vasto reservatório aquático. Para concretizar essa façanha, foram instalados mais de 125 canhões de neve em áreas como Bormio e Livigno, suportados por grandes reservatórios de água em altitudes elevadas.
Historicamente, a dependência de neve artificial tem dominado as edições recentes dos Jogos de Inverno. Os jogos em Sochi viram 80% do uso de neve fabricada, enquanto em PyeongChang esse número subiu para 98% e, em Pequim 2022, 100% das atividades foram realizadas sobre neve artificial.
Um aspecto alarmante apontado pelo Instituto Talanoa é a redução de locais climaticamente viáveis para sediar os Jogos. Nas décadas de 1980 a 2010, 87 localidades eram consideradas aptas, número que deve cair para 52 até a metade deste século e, possivelmente, para 46 em 2080, assumindo um cenário de mitigação moderada das emissões de gases do efeito estufa.
A escassez de neve natural tem implicações mais abrangentes que transcendem o universo esportivo. Alterações no sistema climático global levaram a invernos mais quentes e imprevisíveis. Medições via satélite mostram que a extensão do gelo marinho do Ártico continua abaixo da média histórica, com a menor extensão registrada em setembro de 2012, atingindo apenas 3,8 milhões de km².
Os impactos dessas transformações vão além do esporte. A neve atua como um reservatório natural vital, liberando água gradualmente durante o ano. Com menos neve, há menos água disponível para rios, aumenta-se a pressão sobre outros reservatórios, prejudica-se o turismo de montanha e desestabilizam-se ecossistemas adaptados ao clima frio, com efeitos profundos nas economias locais e modos de vida.
Os Jogos Olímpicos de Inverno, iniciados em 1924 nos Alpes franceses, eram originalmente celebrados onde a abundância de neve natural era garantida, como Europa, Canadá, Estados Unidos e Ásia. Um século depois, a dependência de tecnologias para a produção de neve reflete profundamente como as mudanças climáticas estão redimensionando tradições globais estabelecidas.
Com mudanças climáticas, Jogos de Inverno usam 85% de neve artificial
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