No Brasil, apesar das mulheres doutoradas superarem os homens há mais de duas décadas, elas continuam sub-representadas nas posições de docência em graduação e pós-graduação, além de receberem uma porção desproporcional de bolsas de produtividade. O impacto da maternidade na carreira acadêmica agrava ainda mais a situação, fenômeno denominado “efeito tesoura”. Fernanda Staniscuaski, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, vivenciou tal cenário.
A pesquisadora, que se tornou mãe durante sua carreira, notou uma desaceleração em sua trajetória profissional devido às responsabilidades maternas. Em resposta a essa realidade, ela fundou o movimento “Parents in Science” em 2016. A iniciativa, que agora conta com mais de 90 cientistas associados, busca ampliar o diálogo sobre a parentalidade no meio acadêmico e levantar dados fundamentais que atualmente são escassos.
Os obstáculos enfrentados pelas pesquisadoras não estão limitados à fase avançada da carreira; eles também aparecem nos estágios iniciais. Cristiane Derne, assistente social e mestranda, compartilhou suas dificuldades como mãe estudante de graduação, enfatizando a falta de políticas de apoio efetivas.
O Núcleo Virtual de Pesquisa em Gênero e Maternidade publicou recentemente o Atlas da Permanência Materna, que compila as políticas de assistência das universidades federais. A maioria das instituições oferece auxílio financeiro, mas a ajuda é drasticamente reduzida para pós-graduandas.
Além disso, iniciativas regionais como a da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e movimentos como “Parents in Science” desenvolvem esforços para apoiar mães cientistas através de editais específicos, reconhecendo que a diversidade na ciência produz resultados mais abrangentes e inovadores.
A presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Denise Pires de Carvalho, destacou a importância da inclusão para a melhoria da ciência brasileira. Recentemente, a Capes lançou o programa Aurora, que oferece bolsas para professoras gestantes ou mães, permitindo a inclusão de pesquisadores de pós-doutorado em suas equipes para assegurar a continuidade das pesquisas durante períodos de licença maternidade.
Em uma perspectiva mais ampla, políticas e legislações estão sendo adaptadas para apoiar estudantes e pesquisadoras que são mães, reconhecendo e valorizando seu papel na comunidade científica. A legislação de 2025, por exemplo, proíbe a discriminação baseada na maternidade em seleções de bolsas e estende o período de avaliação de produtividade para casos de licença-maternidade. Estas medidas representam passos importantes para combater o viés de gênero e promover uma ciência mais igualitária e diversificada.
[Foto de Fernanda Staniscuaski por Gustavo Diehl/UFRGS; Foto de Cristiane Derne por Cris Derner/Arquivo Pessoal; Foto de Lizie Calmon por Tomaz Silva/Agência Brasil; Foto de Letícia de Oliveira por Letícia de Oliveira/Arquivo pessoal]
Iniciativas tentam facilitar acesso e permanência de mães na ciência
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